MEU PAI DESTRUIU MEU ROSTO PARA ENTREGAR MEU NOIVO À MINHA IRMÃ… MAS UM TESTAMENTO DE 11 MILHÕES CONDENOU TODOS ELES
PARTE 2
Renata acordou várias horas depois sob uma luz branca. Sentia a cabeça pesada, o rosto enfaixado e uma dor que se estendia da mandíbula até a têmpora. A doutora Natalia Cárdenas aproximou-se da cama. — O osso ao redor do olho esquerdo sofreu várias fraturas. Conseguimos reconstruir a área, mas precisamos esperar a inflamação baixar para saber o quanto você poderá recuperar da visão. Renata sentiu o ar sumir. — O Emiliano? Ele apareceu imediatamente. Ainda usava a camisa manchada de sangue e estava com os nós dos dedos ralados. Inclinou-se com cuidado e beijou os dedos dela. — Estou aqui. E aqui vou continuar. Renata não chorou pela dor. Chorou porque, durante toda a sua vida, sua família havia lhe ensinado que o carinho sempre tinha condições. Emiliano acabara de provar o contrário. Pouco depois, entrou a comandante Jimena Valdés, agente do Ministério Público de Guanajuato. — Preciso lhe perguntar uma coisa diretamente — disse. — O seu pai sabia que o tijolo podia causar lesões graves? — Sim. — E ele a atacou para obrigar o seu noivo a escolher a sua irmã? Renata fechou o olho sadio. Lembrou-se de cada ligação de sua mãe, cada ameaça de Octavio e cada mensagem enviada por Julieta de números desconhecidos. “Saia do caminho.” “Ele merece alguém melhor.” “Se você realmente ama a sua irmã, deixe-o livre.” — Eles planejaram — respondeu. — Meu pai agrediu, mas minha mãe e a Julieta sabiam o que ia acontecer. A comandante tomou nota. Nesse momento, ouviram-se gritos no corredor. — Renata, pare de se fazer de vítima! — berrou Octavio. Patricia esmurrou a porta. — Viemos resolver as coisas e essa menina mimada não quer nos receber! Julieta começou a chorar. — Tudo aconteceu porque o Emiliano me deu esperanças! Emiliano soltou uma risada amarga. — Eu te bloqueei de 8 números diferentes. A comandante saiu do quarto. A porta ficou entreaberta e Renata conseguiu ouvir cada palavra. — Os 3 devem retirar-se — ordenou Jimena. — Sou o pai dela — respondeu Octavio. — Tenho o direito de entrar. — Não quando o senhor é o acusado da agressão. Octavio baixou a voz. — Essa garota sempre exagera. — Temos 6 testemunhas — respondeu a comandante. — O eletricista, 3 vizinhos, um entregador e um jovem que gravou parte do ataque de dentro do seu carro. O corredor ficou em silêncio. Então, Julieta sussurrou: — Pai, a câmera da casa da frente. — Apaguem isso hoje à noite — ordenou Octavio. A comandante não pôde ocultar a sua satisfação. — Perfeito. O senhor acabou de tentar ordenar a destruição de provas na frente de 4 agentes. As algemas foram fechadas. Patricia gritou que tudo era culpa de Renata. Julieta garantiu que jamais quisera magoar ninguém. Octavio insultou Emiliano enquanto era conduzido ao elevador. Antes de as portas se fecharem, uma voz idosa ecoou atrás deles. — Finalmente você vai pagar, Octavio. Era o homem da janela. Segurava uma bengala de madeira e trazia a mesma pasta de couro. Octavio perdeu a cor ao reconhecê-lo. — O senhor não tem o direito de estar aqui! — Tenho mais direito do que você — respondeu o idoso. — Eu cumpri uma promessa. Quando os detidos desapareceram, ele entrou no quarto e tirou o chapéu. — Meu nome é Leandro Lozano. Fui sócio e melhor amigo do seu avô, Dom Anselmo Vargas. Renata mal tinha ouvido falar dele. Segundo Octavio, seu avô havia sido um homem frio, obcecado pelo trabalho e sem interesse pelas netas. Leandro colocou uma fotografia sobre a cama. Nela, apareciam 2 homens jovens em frente a uma marcenaria. Um era Leandro. O outro tinha os mesmos olhos que Renata. — O seu avô não era frio — explicou. — Quando soube que você estava a caminho, construiu um berço de carvalho. Entalhou estrelas, nuvens e o seu nome em um dos lados. — Nunca vi esse berço. — O Octavio o queimou no dia em que você nasceu. Emiliano levantou o olhar, indignado. — Por que ele faria algo assim? Leandro respirou com dificuldade. — Ele queria um filho homem. Quando a Renata nasceu, disse que o pai dele estava desperdiçando amor e dinheiro com uma menina. Renata sentiu o mesmo vazio que havia sentido muitas vezes durante a infância. — Mas depois a Julieta nasceu e ele a tratou como uma princesa. — Porque descobriu que podia usá-la — respondeu Leandro. — A Julieta aprendeu muito cedo que ganharia prêmios se competisse com você. Você era a herdeira que o Octavio temia. Ela se tornou a filha que ele podia controlar. O idoso abriu a pasta e tirou vários envelopes amarrados com uma fita verde. Em cada um estava escrito o nome de Renata. — O Anselmo lhe escreveu uma carta para cada aniversário. Pediu-me que as entregasse a você se ele morresse antes de te ver crescer. — Por que o senhor nunca fez isso antes? — O seu pai me ameaçou. Falsificou documentos para me acusar de roubar mercadorias da empresa. Disse que, se eu me aproximasse de você, me colocaria na cadeia e destruiria os meus filhos. Leandro havia guardado as cartas por 27 anos. Também trazia uma chave de latão. — Abre uma caixa de segurança que o seu avô alugou em um banco do centro. Os documentos originais ainda estão lá. Antes que Renata pudesse perguntar que documentos eram, a comandante Valdés regressou. — Acabamos de cumprir um mandado de busca e apreensão na casa dos seus pais — informou. — Encontramos algo preocupante. Sobre a escrivaninha de Octavio havia fotografias de Emiliano, mapas dos seus trajetos, cópias de contratos, extratos financeiros e horários detalhados de suas reuniões. Também localizaram um caderno pertencente a Julieta. Jimena leu algumas linhas: — “Se a Renata ficar marcada, o Emiliano vai começar a nos comparar.” Outra diz: “A mamãe acha que devemos assustá-la primeiro. O pai diz que uma lesão permanente seria melhor.” Renata sentiu náuseas. Sua irmã havia escolhido o vestido vermelho para se apresentar a Emiliano após o ataque. Seus pais esperavam que, ao ver Renata ferida, ele aceitasse ficar com Julieta. Não havia sido uma briga que saiu do controle. Eles haviam planejado uma substituição. A comandante entregou um saco de evidências com um telefone. — Também encontramos mensagens apagadas. O laboratório recuperou uma enviada por sua mãe esta manhã. Patricia havia escrito: “Quando ele a vir sem um olho, o amor vai acabar. Homens milionários não querem esposas defeituosas.” Emiliano afastou-se da cama para não quebrar algo. — Neta, como uma mãe pode escrever isso? Renata não respondeu. Passara tempo demais procurando humanidade em pessoas que só viam utilidade. Naquela tarde, recebeu uma chamada de vídeo inesperada. Uma mulher de aproximadamente 55 anos apareceu na tela. — Sou Marcela Vargas, a irmã do Octavio. Renata jamais tinha ouvido seu nome. Marcela explicou que morava há mais de 20 anos em Sonora com o sobrenome do marido. Havia se afastado porque Octavio a agrediu quando ela tentou denunciar que ele estava roubando dinheiro da marcenaria da família. — O seu avô descobriu os desfalques — contou. — Por isso mudou o testamento. Leandro apertou a bengala. — O Anselmo nunca me disse o que colocou. — Temia que o Octavio encontrasse uma forma de destruí-lo — respondeu Marcela. — Deixou o negócio sob a administração dele, mas não lhe entregou a propriedade definitiva. A família controlava a antiga marcenaria, 6 pontos comerciais, um galpão, terrenos perto de San Miguel de Allende, uma casa perto da represa e vários investimentos. O valor atual passava de 11 milhões de dólares. — O testamento tem uma cláusula — continuou Marcela. — Se o Octavio fosse condenado por um crime violento contra um familiar direto, perderia todos os bens. Renata engoliu em seco. — Para quem eles passariam? Marcela olhou diretamente para a câmera. — Para a filha que ele tivesse atacado. Durante anos, Octavio havia humilhado Renata para impedir que ela questionasse as contas da família. Precisava mantê-la insegura, longe da empresa e convencida de que não merecia nada. No entanto, ao golpeá-la com o tijolo, ativou a cláusula que mais temia. A chave de Leandro abriu a caixa de segurança no dia seguinte. Dentro estavam o testamento original, os registros do fundo, as cartas e uma fita de áudio. Na gravação, Dom Anselmo falava com voz cansada. — O meu filho acredita que o dinheiro pode comprar obediência. Se algum dia ele machucar uma de suas filhas para proteger a sua fortuna, essa filha deverá receber o que ele nunca soube cuidar. A evidência mudou completamente o caso. As 6 testemunhas confirmaram que Patricia e Julieta não tentaram impedir o ataque. A gravação de um vizinho mostrou Octavio erguendo o tijolo enquanto a esposa segurava a porta para evitar que Renata entrasse. Outro vídeo flagrou Julieta dizendo-lhe: — Faz forte, pai. Se você só assustar, o Emiliano não vai deixar ela. Os advogados da família tentaram alegar uma crise emocional. Depois, disseram que Renata havia provocado Octavio. Finalmente, ofereceram dinheiro para que ela retirasse a denúncia. Ela rejeitou cada proposta. Meses depois, Octavio recebeu uma pena de prisão por lesão corporal qualificada, violência doméstica e obstrução da justiça. Patricia e Julieta foram condenadas por sua participação no planejamento, ameaças e tentativa de destruição de provas. Também receberam ordens definitivas de restrição. Quando o juiz confirmou a perda dos bens protegidos, Octavio não olhou para a filha. Olhou para o seu advogado e perguntou quanto dinheiro lhe sobraria. Nem sequer nesse momento lamentou ter destruído o rosto dela. Apenas lamentou ter perdido a fortuna. A visão de Renata retornou aos poucos. Nunca voltou a ser perfeita, e uma cicatriz fina ficou sob o seu olho esquerdo. No início, ela a cobria com maquiagem. Depois, compreendeu que não tinha por que esconder a prova de que havia sobrevivido. Com parte da herança, criou oficinas gratuitas para jovens que quisessem aprender marcenaria, eletricidade e construção. Conservou a antiga marcenaria e colocou uma placa na entrada: “Anselmo Vargas: construiu móveis com as mãos e protegeu a neta com a verdade.” Leandro chorou ao vê-la. Semanas antes do casamento, ele levou Renata ao cemitério. Diante do túmulo de Anselmo, entregou-lhe um pedaço de madeira queimada. Era o único fragmento resgatado daquele berço. Ainda era possível ler algumas palavras entalhadas: “Para Renata, minha primeira luz.” Ela apoiou a madeira contra o peito e chorou pelo avô que a havia amado, mesmo quando o seu próprio pai tentou convencê-la de que ela havia nascido sobrando. Naquela noite, Emiliano a levou para a casa perto da represa. Sentaram-se no píer enquanto o céu se refletia na água. Ele tirou uma das cartas. Na última página, Anselmo havia escrito: “Quando alguém disser que você não merece amor, não confunda a incapacidade dele com o seu valor. A crueldade também se herda, mas alguém deve ter a coragem de quebrá-la.” Emiliano segurou a mão de Renata. — Você ainda quer se casar comigo? Ela tocou a cicatriz e sorriu. — Minha família acreditou que você deixaria de me amar quando o meu rosto mudasse. — Então eles jamais entenderam o que é amar. Renata olhou para a água, para as cartas e para o pedaço de berço que havia trazido consigo. O pai lhe havia atirado um tijolo para transformá-la em alguém impossível de ser escolhida. Mas acabou provando quem já a havia escolhido antes mesmo de ela nascer. E essa foi a verdadeira condenação de sua família: perder o dinheiro, a liberdade e a única pessoa que um dia esteve disposta a amá-los, apesar de tudo.

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